terça-feira, 27 de maio de 2014

Literatura de Cordel na escola: sugestões metodológicas


Antônio Wanderley de Melo Corrêa*



A escola é local por excelência onde a dinâmica da sociedade se expressa, bem como suas permanências e tradições. A comunidade está ali representada largamente, com estratos sociais diferentes, faixas etárias e pessoas de níveis educacionais diversos e até com interesses contraditórios. É um dos espaços das expressões genuínas da cultura popular, interagindo com outras culturas, sendo um verdadeiro “laboratório” social e cultural dinâmico. 
A Literatura de Cordel, introduzida nas atividades pedagógicas da escola, através de projetos específicos ou interdisciplinares, gincanas, feiras culturais e oficinas de produção literária, proporciona aos estudantes a oportunidade rica de um amplo diálogo com a cultura popular, além do reconhecimento e afirmação desta cultura tradicional regional em contraponto à cultura de massa ou de consumo.
Também estimula a prática da leitura, da escrita neste mergulho na criatividade literária. É um exercício de auto-afirmação e da valorização do próprio gênero Cordel, preservado e expandido largamente e sem conta pelo Brasil a fora (ou seria adentro?). Nessa linha de raciocínio, percebe-se que o Cordel na escola não é somente linguagem e fonte de informação. Assim, se torna imprescindível o diálogo com a cultura que emana deste gênero literário.
Quando o Cordel chega à escola, muitos estudantes vêm como uma novidade exótica ou como uma realidade distante da própria cultura escolar e comunitária. Entretanto, ao terem contato com os conteúdos dos folhetos da poesia popular, sempre acontece uma grande identificação, seja pela sua abrangência, seja pela enorme variedade temática, contemplando todos os gostos, ou ainda pelo estilo bem humorado, irônico e lúdico do gênero literário. Não obstante, o pedantismo e a descriminação de alguns “intelectuais” o denominando de “paraliteratura” ou “literatura menor”. Coisa do Brasil, o império das contradições. As expressões geniais e autênticas da nossa cultura são tratadas com desdém por setores do mundo acadêmico, enquanto universidades européias, de tradição milenar, reverenciam o Cordel brasileiro, através de disciplinas específicas para estudar o gênero literário; produzem teses científicas e honram poetas populares com títulos Honoris Causa.
Assim, apresentar o Cordel à escola é uma ação coerente com a história e a cultura regional, além de ser poderoso aliado nas práticas de ensino/aprendizagem. É o que pretendemos mostra neste escrito, baseado em duas excelentes obras sobre o tema: I - MARINHO, Ana Cristina e PINHEIRO, Hélder. O Cordel no cotidiano escolar. São Paulo: Cortez, 2012; II - HAURÉLIO, Marco. Literatura de Cordel: do sertão à sala de aula. São Paulo: Paulus, 2013.
Antes de tratarmos do tema, considero pertinente ressaltar o que a leitura proporciona: enriquece o vocabulário, aumenta a agilidade do pensamento, melhora a verbalização e a dicção, favorece a fluência e a correção da escrita, amplia e diversifica o conhecimento e expande as idéias e os valores, canalizando para a ampla e verdadeira liberdade de pensamento.
            Também são fundamentais alguns cuidados, no que se refere ao trabalho educativo com qualquer gênero de leitura: sondar dos leitores o que gostam, quais seus interesses, suas experiências culturais; partir de algo que possa tocá-los; entender que o gosto pode ser educado; o prazer de ler não anula o esforço da própria leitura e o trabalho de compreensão.
Destaquei seis ações metodológicas, como sugestões para trabalhos educativos com Literatura de Cordel.
 1. A leitura oral – Ler em voz alta, com ritmo e entonação, é uma atividade fundamental. Pode ser realizada mais de uma leitura. Trata-se de dar expressividade à leitura. Poemas humorísticos ou dramáticos requerem tons e expressividades adequadas. Assim, a leitura deverá ser sempre treinada antes da apresentação ao público. É importante que a leitura seja feita com os folhetos, para que todos conheçam esse tipo de produção cultural. De acordo com a temática de cada poema, muitas atividades podem ser feitas com ou a partir dos folhetos. Para aqueles estudantes que não têm o ímpeto para a leitura oral, é recomendável a leitura individual e silenciosa, seguida do preenchimento de uma ficha de leitura;
2. A variedade de temas – A Literatura de Cordel possui uma variedade enorme de temas, que vai desde fatos históricos, sociais e cotidianos até romances e fantasia. No Cordel, todos os assuntos e informações viram versos. As idéias conflitantes e as ideologias diversas contidas na poesia popular são estímulos ao debate, que deve sempre ser privilegiado na sala de aula. Assim, os estudantes mergulham na cultura de seu povo e são estimulados a serem agentes transformadores dessa cultura. A discussão pode ser comparativa, sobre folhetos que tratem do mesmo tema, de um tema da atualidade global ou regional, sobre os valores, acertos e possíveis equívocos defendidos pelo autor;
3. Dramatizações – Desenvolver a capacidade dos estudantes em reinventar as histórias dos folhetos de Cordel na forma de dramatizações individuais ou grupais, sem a obrigação de cenários e trajes elaborados, com sentido prático e explorando a improvisação. A Literatura de Cordel já inspirou inúmeras peças do teatro brasileiro;
4. Cordéis cantados – Pode ter vivências agradáveis em sala de aula. Toda a turma ou pequenos grupos podem cantar poemas de Cordel no estilo das cantorias de violeiros (consulte vídeos na internet sobre esse gênero musical) ou os próprios alunos criando músicas para as estrofes. Grandes nomes da música popular brasileira cantaram poemas de Cordel;
5. Criações de histórias na sala de aula – Na criação de histórias, as fontes de inspirações podem ser as experiências pessoais, familiares ou comunitárias. Cada um pode colocar no papel, transpor para um folheto, suas experiências em versos rimados: uma paixão, um sonho, um problema social, uma luta comunitária, um fato histórico, um acontecimento pitoresco, uma festa, uma partida de futebol, uma lenda da comunidade, entre tantos outros motivos. Tudo pode virar versos;
6. Uma feira literária – Envolvendo diversas atividades, como venda de folhetos, cantorias de violeiros, exposições de folhetos, murais, palestras, oficina de produção de poemas e de confecção de folhetos; encenações de histórias, apresentações de musicas influenciadas, filmes inspirados, além de ilustrar as narrativas em cartazes.
            Concluo citanda a autora de um dos trabalhos que serviram de referência para este escrito: O mais importante de tudo isto é que a literatura de cordel seja percebida como uma produção cultural de grande valor e precisa ser conhecida, preservada e cada vez mais integrada à experiência de vida de nossas novas gerações (Ana Cristina Marinho).


(*) Licenciado em História pela UFS, professor das redes públicas estadual (SEED) e municipal de Aracaju (SEMED/PMA), escritor de livros didáticos sobre Sergipe e cordelista.

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