sexta-feira, 12 de outubro de 2012

15 de Outubro: o Dia do Professor


Antônio Wanderley de Melo Corrêa*

Professor Salomão Becker: criador do "Dia do Professor"
            O “Dia do Professor” é comemorado em 15 de outubro. Quase ninguém sabe o porquê da data, inclusive os próprios profissionais homenageados. O presente escrito objetiva dar uma rápida informação sobre a origem da data comemorativa e debater sobre a sua importância.
            Quando se aproxima a data mencionada, ouve-se repeti que “o professor não tem motivos para comemorar!”. A afirmativa amarga tem fundamentos, se levarmos em conta os salários do magistério que impõe jornadas de trabalho massacrantes; a criminalização dos professores como os únicos responsáveis pelos baixos desempenhos dos índices de aprendizado; os minúsculos investimentos governamentais em educação, resultando em escolas com infra estrutura, material didático e equipamentos insuficientes e profissionais desmotivados; pais distantes da educação de seus filhos e muitos alunos com atitudes agressivas ou avessos ao direito (e dever para consigo mesmo) de aprender; perdas contínuas de direitos; displicência da sociedade e desinteresse do Estado brasileiro no que se refere à importância estratégica da educação (e do professor) para o futuro da nação.
            Entretanto, o professor é fundamental para o saber cognitivo das pessoas; além da formação curricular, muitos aprendizados ocorrem por iniciativa dos professores ou quando são provocados; são eles, em muitos casos, os “pais”, “psicólogos”, conselheiros e amigos de seus alunos; proporcionam aos estudantes acesso aos bens culturais; desenvolvem projetos nos quais as nossas crianças, adolescentes e jovens desenvolvem a criatividade, aprendem a se expressarem e a trabalharem em grupo, recebem informações precisas e debatem sobre os problemas sociais e os desafios pessoais e coletivos; recebem exemplos práticos de esforço, disciplina e amor pelo conhecimento.
A importância dos profissionais da educação é enorme. “É na escola que as coisas acontecem!” Assim, é inconcebível uma sociedade sem professores. E quanto mais bem preparados, valorizados, com tempo disponível, estimulados e remunerados, melhor para a sociedade, porque o ganho é para todos. Pela sua importância, eles têm o que comemorar sim.        
No dia 15 de outubro de 1827, dia consagrado pela Igreja Católica à educadora Santa Teresa de Ávila, D. Pedro I assinou um Decreto Imperial criando o Ensino Elementar no Brasil, correspondente ao atual Ensino Fundamental Menor.
            Somente em 1947, 120 anos após o referido Decreto, ocorreu a primeira comemoração naquela data como dedicada aos professores. Foi na escola Ginásio Caetano de Campos situado na Rua Augusta, 1520, em São Paulo capital.
            Os professores do “Caetaninho” resolveram realizar um dia de congraçamento entre eles. O professor Salomão Becker sugeriu a data de 15 de outubro, na qual, em uma escola de sua cidade natal, Piracicaba/SP, professores e alunos costumavam levar doces para uma pequena confraternização naquela data.
            A sugestão foi aceita pelos demais. A celebração foi um sucesso, com a presença maciça de professores, alunos e pais. A data 15 de Outubro foi mantida naquela escola para eventos comemorativos alusivos ao professor.
            A celebração do Ginásio Caetano de Campos espalhou-se pela cidade e, nos anos seguintes, pelo Brasil.
            A data 15 de Outubro, comemorando o Dia do Professor foi oficializada pelo presidente João Goulart através do Decreto 52.682 de 14 de outubro de 1963.

*Licenciado em História pela UFS, professor das redes públicas estadual (SEED) e municipal de Aracaju (SEMED) e co-autor do livro didático Sergipe Nosso Estado.

sábado, 22 de setembro de 2012

Aos colegas professores




Edições Sergipecultura é uma equipe de professores que produz livros didáticos e paradidáticos específicos sobre Sergipe nas áreas de História, Geografia/Meio Ambiente e Cultura desde 2002.
Em outubro de 2011, lançamos mais um título: Sergipe Nosso Estado, para o ensino fundamental, o sucessor de Sergipe Nossa História e Sergipe Nossa Geografia publicados entre 2005 e 2011.
Os textos desses livros foram revisados, atualizados e ampliados, além de terem sido acrescentados conteúdos sobre os aspectos mais significativos da cultura sergipana e o texto ter sido escrito no acordo da nova ortografia.
Sergipe Nosso Estado (SNE) contém 40 capítulos: 18 sobre a História de Sergipe distribuídos em 4 Unidades; 13 sobre a Geografia de Sergipe em 4 Unidades e 9 sobre a cultura sergipana na última unidade. O livro tem dimensões 27,5cm x 20,5cm, 220 páginas com brochura espiralada e miolo colorido. Nosso livro é fundamentado em uma bibliografia sólida que há anos vem sendo ampliada e estudada exaustivamente.
            Os autores são sergipanos, profissionais das disciplinas citadas, com uma média de 25 anos de experiência na área da educação nas redes públicas e particular.
            Os objetivos de SNE são: cumprir a Constituição do Estado de Sergipe (Art. 215, VIII Princípio da Educação), transmitir informações específicas sobre o local, contribuir para o fortalecimento do sentimento da sergipanidade/pertencimento e contemplar as Leis 10.639/03 e 11.645/08 que tornam obrigatório o estudo da História e da Cultura Afro-Brasileira e Indígena, respectivamente.
A distribuição de SNE para as livrarias e papelarias acontecerá a partir do final de novembro. Garantimos que não faltará exemplares nos estabelecimentos comerciais citados, em virtude do livro ser impresso em Aracaju por uma editora com serviços gráficos de alto padrão de qualidade, agilidade e profissionalismo. Além de termos contato direto e aproximação com as livrarias/papelarias de Aracaju e dos centros regionais do interior.
O valor do livro SNE, para os pais, será mantido o mesmo do ano passado: 60 Reais.
Na Internet, disponibilizamos o blog sergipecultura.blogspot.com contendo informações sobre nossas publicações, além de matérias e artigos sobre Educação, Cultura, História e Meio Ambiente para subsidiar professores e estudantes do Ensino Fundamental e Médio. Também estamos no Twitter (@sergipecultura) com breves informes sobre aspectos históricos, geográficos, ambientais e do nosso estado.
Por fim, informamos que em 2013 Edições Sergipecultura lançará os primeiros títulos da Coleção “Meu Papagaio” de livros paradidáticos infantis, como sempre, com temáticas e ambientação locais.


Os autores,
Antônio Wanderley/Luiz Fernando/Marcos Vinícius

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Manoel Bomfim: o "professor de professores" sergipano¹



Antônio Wanderley de Melo Corrêa2
           
Manoel Bomfim foi um dos maiores intelectuais sergipanos de todos os tempos e um dos maiores do Brasil nas três primeiras décadas do século 20. Segundo um de seus biógrafos, o alagoano Ronaldo Conde Aguiar, o “esquecimento” de sua obra, profunda e volumosa, e de sua personalidade marcante, se deveram a algumas condições: a sua não aceitação em fazer parte dos 40 primeiros imortais da Academia Brasileira de Letras, convidado pelo fundador Machado de Assis; à sua crítica furiosa, radical (de raiz) e consistente às elites da República Velha; a não adesão do intelectual sergipano à Revolução de 1930, que para ele “não traz substituição de gentes, nem de programas, nem de processos”; não ter absolvido o Socialismo como teoria para sua obra nem para a sua militância, não obstante ter sido um simpatizante da Revolução Bolchevique de 1917. Sobre o Socialismo, Bomfim pontificou: “seria um sistema perfeito, se os homens fossem perfeitos”.
Este escrito é uma pequena contribuição para o (re) conhecimento sobre a vida e a obra do médico, psicólogo, escritor, pedagogo, professor, homem público, sociólogo e historiador sergipano, desconhecido da imensa maioria dos seus conterrâneos do presente.         
Manoel José do Bomfim nasceu em Aracaju em oito de agosto de 1868, filho de um próspero comerciante da Rua da Aurora (atual Avenida Rio Branco) e proprietário do engenho Quiçamã (São Cristóvão): Paulino José do Bomfim e de Maria Joaquina do Bomfim. “Nezinho” foi o quarto dos 13 filhos do casal. Por volta dos 12 anos foi morar no engenho Quiçamã, ajudando o pai a administrar a propriedade. Aos 16 anos, comunicou aos genitores a sua intenção de sair de Sergipe para se tornar médico.
Em 1886, o jovem Manoel José, com apenas 18 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. Dois anos depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Olavo Bilac, tornando-se seu amigo até a morte deste em 1918. A dupla Bomfim e Bilac iria, nos 30 anos seguintes, realizar vários projetos literários e educativos. Em 1890, com 22 anos, concluiu o curso de Medicina com a tese “Das Nephrites”.
            O ano de 1891 foi significativo para Bomfim. Foi nomeado médico da Secretaria de Polícia do Rio de Janeiro e casou-se com Natividade Aurora de Oliveira. No ano seguinte, foi promovido a tenente-cirurgião da Brigada Militar (atual Polícia Militar) da capital federal de então. Naquele período escreveu seus primeiros artigos para a imprensa, atividade a qual realizou por quase toda a vida.
            Em 1894, com 26 anos, Bomfim perdeu seu pai Paulino José e, meses depois, sua filha Maria de três anos, durante uma epidemia de tifo. Desiludido com a Medicina abandonou a profissão.
            No ano de 1897 foi nomeado diretor-geral do Pedagogium, uma instituição federal criada por Benjamim Constant para a profissionalização e o aperfeiçoamento de professores públicos e particulares. Ao mesmo tempo lecionava a disciplina Instrução Moral e Cívica na Escola Normal, de formação de professores do Curso Primário, do Rio de Janeiro. Ainda lecionou nesta instituição as disciplinas Pedagogia e Psicologia Aplicada à Educação. No ano seguinte, foi nomeado o diretor da Instrução Pública (cargo equivalente ao de secretário de educação na atualidade) do Distrito Federal. No Pedagogium, Bomfim instalou o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental do Brasil.
Por ter se tornado um homem público no campo da educação, ter escrito vários livros para o trabalho educativo, ser formador de professores e um defensor incansável da instrução sistemática para todos os brasileiros, se autodenominava um “professor de professores”. E o foi até os seus últimos dias. No seu derradeiro livro tratou da educação brasileira, como informaremos adiante.
            Nos anos seguintes publicou, em parceria com Olavo Bilac, Livro de Composição para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1899) e Livro de Leitura para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1901).
            No biênio 1902/1903 estudou Psicologia em Paris, com bolsa do Governo Federal.
Após ser solicitado por jornalistas parisienses para que escrevesse um artigo sobre a América Latina e o Brasil (em 1903), Bomfim escreveu um livro: América Latina Males de Origem, o seu primeiro título histórico-sociológico, publicado em 1905, tendo o autor a idade de 37 anos.
América Latina foi um livro original, contrário à visão preconceituosa que os europeus tinham dos latino-americanos, associando a mestiçagem a uma suposta inferioridade física, intelectual e moral. Visão esta, aceita e reproduzida por muitos intelectuais brasileiros de então. Apesar da boa aceitação, o livro foi criticado e desqualificado violentamente por Silvio Romero, conterrâneo de Bomfim. Romero era um dos maiores representantes das teorias racistas de superioridade da “raça” ariana ou germânica diante das “raças” mestiças locais. Para ele, os mestiços eram “uma sub-raça brasileira cruzada”. Darcy Ribeiro (ver fontes) adjetivou América Latina como “um livro extraordinário”.
Naquele mesmo ano (1905), junto com Luis Bartolomeu e Renato de Castro, fundou a revista infantil O Tico-Tico. A primeira revista em quadrinhos semanal e colorida do Brasil. Foi um sucesso desde a sua primeira edição. Foi publicada por quase 57 anos, até fevereiro de 1962, totalizando 2097 edições, divertindo e educando várias gerações de brasileiros.
Em 1906, Bomfim propôs ao prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, a idéia da composição de um hino à Bandeira Nacional. O projeto foi concretizado, o Hino à Bandeira, Letra de Olavo Bilac e música de Francisco Braga, espalhou-se pelo Brasil e foi oficializado pela República em 19 de novembro daquele ano. 
            Na legislatura 1907/1908, Bomfim foi eleito deputado federal, formando com Felisbelo Freire, Gilberto Amado e Silvio Romero uma “prestigiosa bancada sergipana”. Naquele período, além de parlamentar, exerceu outra vez o cargo de chefe da Instrução Pública do Distrito Federal (Rio de Janeiro).
            Em março de 1908, o deputado federal Manoel Bomfim chegou a Aracaju com a família, Natividade e seu filho Aníbal. Veio visitar sua mãe e irmãos, reunir-se com políticos correligionários da capital e do interior, agradecer os votos que o elegeram e reorganizar os negócios da família, entre eles a venda do engenho Quiçamã, em função da crise da produção açucareira que atingia o estado. Em 14 de fevereiro de 1909, após a derrota pleiteando a reeleição, Bomfim e família embarcaram no navio Satélite de volta ao Rio de Janeiro. Não mais voltaria a Sergipe.
            Em 1910, aos 42 anos, publicou, em parceria com Bilac, o livro de leitura escolar Através do Brasil, que foi lido por diversas gerações de brasileiros nos bancos escolares ao longo do século 20, tendo 66 edições até 1965. Um marco na literatura escolar brasileira. Da geração dos nossos avós para trás, todas as crianças brasileiras que foram à escola, aperfeiçoaram a leitura se deliciando com as aventuras dos garotos Carlos, Alfredo e Juvêncio de Através do Brasil.
            Em 1911, o “professor de professores” reassumiu a direção do Pedagogium, ficando até 1919, quando foi extinto. Por 19 anos dirigiu aquela instituição.
            Em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, Bomfim escreveu dois artigos no Jornal do Comércio (do Rio de Janeiro) intitulados A Obra do Germanismo, nos quais criticou os interesses geopolíticos da Alemanha e a responsabilidade daquele país em deflagrar o conflito. Transformou os artigos em um livreto e destinou o rendimento da venda da publicação à Cruz Vermelha da Bélgica, país invadido brutalmente pelo exército alemão. Ao final da guerra, em 22 de novembro de 1918, foi condecorado pelo rei Alberto I da Bélgica com a Ordem Leopoldo.


             Outras publicações de Bomfim: Lições de Pedagogia: Teoria e Prática de Educação (1915); Noções de Psicologia Escolar (1916); Primeiras Saudades (1919); A Cartilha, Lições e Leituras, Crianças e Homens, Livro dos Mestres: com Aplicações à Linguagem do Ensino Primário (1922); Estudo do Símbolo no Pensamento e na linguagem (1923); O Método dos Testes (1928) em parceria com Ofélia e Narbal Fontes.
Foi redator de várias revistas e colaborou com alguns dos maiores jornais da época: Notícia, Tribuna, Jornal do Comércio e Paiz.
Entre os muitos amigos ilustres do “professor de professores” sergipano, destacaram-se: Olavo Bilac, Alcindo Guanabara, Aluísio Azevedo, Arthur Azevedo, Paula Nei, Luis Murat, Pardal Mallet, Guimarães Passos, Raul Pompéia, Humberto de Campos, Gilberto Amado, Coelho Neto, Pinheiro Machado, Graça Aranha, Juracy Camargo e Medeiros de Albuquerque.
Não obstante possuir uma mente brilhante e enorme capacidade de trabalho, Bomfim era uma personalidade de temperamento forte, teimoso, intransigente, rigoroso no julgamento, inclusive consigo mesmo. Como a contradição é uma marca do espírito humano, ele teve fama de sedutor e de ter relacionamentos paralelos ao casamento com a companheira de toda a vida: Natividade Aurora.   
            No ano de 1926, começou a ter problemas com a saúde. Em 1928, descobriu que estava com câncer na próstata. Percebendo que lhe restava pouco tempo de vida, dedicou-se corajosamente a escrever. Iniciava-se ali a fase mais brilhante de sua carreira de escritor. Entre 1928 e 1932, os últimos lustros de sua vida, o pedagogo sergipano escreveu a trilogia histórico-sociológica que o consagrou, além de mais um título sobre educação. Não queria morrer sem deixar prontas as obras sobre o Brasil que tanto amava.
Sofreu terrivelmente com a doença evoluindo para a metástase. Foi internado várias vezes e sofreu, nada mais nada menos que, 14 cirurgias. Vivia a maior parte do tempo deitado, sentindo dores atrozes por não aceitar sedativos, debilitado ao extremo. Mesmo assim, não abandonava a máquina de escrever.
Num esforço heróico, escreveu e publicou O Brasil na América (1929) com mais de 400 páginas; O Brasil na História (1930) com quase 600 páginas; e O Brasil Nação (1931), este último em dois volumes.
Com as forças físicas praticamente anuladas, produziu seu último trabalho Cultura e Educação do Povo Brasileiro prostrado no seu catre de dor e de idéias, ditando ao teatrólogo Juracy Camargo (autor da peça Deus lhe Pague). O livro foi publicado postumamente em 1933 e premiado pela Academia Brasileira de Letras.
            Finalmente, na noite de 21 de abril (Dia de Tiradentes, o mártir da Independência) de 1932, Manoel José do Bomfim deu seu último suspiro. Tinha 64 anos. No dia seguinte, 22 de abril (Dia oficial do achamento do Brasil), o cortejo fúnebre saiu do bairro de Santa Teresa em direção ao Cemitério São João Batista. O sepultamento aconteceu no final daquela tarde nublada, bem simbolizando a tristeza dos familiares e amigos do “professor de professores” sergipano. Até o presidente da República, Getúlio Vargas, enviou representante.
            Os biógrafos e estudiosos da obra de Bomfim são praticamente unânimes em afirmarem que o seu esquecimento não foi por mera obra do acaso ou por simples displicência da memória coletiva. Por ter sido um homem à frente de seu tempo, foi rejeitado e amaldiçoado pelas elites conservadoras e atrasadas da República Velha oligárquica e repressora.
Pela profundidade, originalidade, amplitude e atualidade de sua obra, em função das idéias antiimperialistas, anti-racistas, democráticas, de educação pública generalizada, por criticar os pífios investimentos governamentais em educação, por propor uma escola sem castigos físicos e humilhantes e com uma educação humanizante e prazerosa, além do “desmesurado amor pelo Brasil”, nas últimas décadas vêm ocorrendo o redescobrimento de Manoel Bomfim. Diversos intelectuais vêm se debruçando sobre os escritos do sociólogo sergipano. Um número significativo de teses e artigos são produzidos por historiadores, sociólogos, geógrafos, psicólogos e pedagogos nas universidades e institutos de pesquisa. Editoras do porte da Topbooks e da Companhia das Letras reeditaram vários de seus trabalhos, inclusive uma caudalosa biografia do “professor de professores” com 560 páginas (AGUIAR, 2000).
Vários intelectuais sergipanos vêm citando, analisando e tendo como referência teórica a obra grandiosa do conterrâneo aqui biografado. Eis alguns deles: Ivo do Prado, Ariosvaldo Figueiredo, Maria Thétis Nunes, Terezinha Oliva, Marta Cruz, José Vieira da Cruz e Antônio Bittencourt.
Em 2010, a deputada estadual Ana Lúcia fez uma propositura solicitando a transformação do prédio onde nasceu e viveu por 12 anos o “professor de professores” em um “Memorial Educador Manoel Bomfim”. O imóvel é situado na Avenida Rio Branco (A “Rua da Frente”, antiga “Rua da Aurora”) próximo à Praça Fausto Cardoso em Aracaju, onde abrigou o antigo jornal Diário de Aracaju e a Rádio Jornal AM. O objetivo do Memorial é preservar e tornar reviva a história da educação em Sergipe.


            Para concluir, pequenos fragmentos do pensamento de Bomfim sobre dois temas atualíssimos: o meio ambiente e a democracia, numa época na qual quase ninguém se importava com a devastação da natureza, enquanto a democracia no Brasil oligárquico era uma palavra sem muito sentido. 
“A natureza é inesgotável, com a condição, porém, de que a estudemos, e que alcancemos aproveitá-la e explorá-la, sem que a inutilizemos. (...) pensem, então, nas ferozes devastações dos nossos bosques e matas, tão úteis à vida; pensem no que se tem perdido, da uberdade do nosso solo, nos incêndios bárbaros que a ignorância da nossa lavoura acende todos os dias, desde quatro séculos, por sobre milhares de léguas quadradas de terras, que, férteis e virgens ontem, (...), estão hoje convertidas em campos ásperos, agrestes, nus, que só muito trabalho e muita ciência poderão restituir à cultura”. (in América Latina: Males de Origem, 1905).
“A democracia, voz da maioria, converteu-se em regime de exploração da maioria trabalhadora, (...). Senhora dele [o capital], uma minoria pode subordinar o aparelho democrático aos interesses capitalistas e, arrimada nos direitos patrimoniais, pessoais, exige a garantias dos privilégios de fato em que está montada, privilégios que significam justamente o sacrifício do grande número”. (in O Brasil Nação, 1931).

1 – Artigo publicado no Jornal do Dia, Aracaju: 08 e 09 ago 2012. P. 04.
2 - Licenciado em História pela UFS, professor das redes públicas estadual (SEED) e municipal de Aracaju (SEMED) e co-autor do livro didático Sergipe Nosso Estado.

FONTES:
AGUIAR, Ronaldo Conde. O Rebelde Esquecido: Tempo, Vida e Obra de Manoel Bomfim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
BILAC, Olavo. BOMFIM, Manoel. Através do Brasil: Prática da Língua Portuguesa. Coleção Retratos do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
BOMFIM, Manoel. América Latina: Males de Origem (Prefácios de Darcy Ribeiro, Franklin de Oliveira e Azevedo Amaral). 4ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
BOMFIM, Manoel. O Brasil Nação: Realidade da Soberania Brasileira (Prefácios de Wilson Martins e Ronaldo Conde Aguiar). 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
BOMFIM, Manoel. O Brasil na América: Caracterização da Formação Brasileira (Prefácio de Maria Thétis Nunes). 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
CRUZ, Jose Vieira da; BITTENCOURT JUNIOR, Antonio (Organizadores). Manoel Bomfim e a América Latina. Aracaju: Editora Diário Oficial, 2010.
SANGALLI, Adriana. Prédio do Antigo Diário de Aracaju Pode se Tornar Memorial Manoel Bomfim. Agência de Notícias da Assembléia Legislativa de Sergipe (Internet). 10 fev. 2011.
SANTANA, Sonia Cristina Pimentel de. Manoel Bomfim: Resgate de um Educador Comprometido com a Causa da Instrução Pública Brasileira. Boletim Informativo. Ano IV. Nº VIII. São Cristóvão: UFS/Departamento de Ciências Sociais/NPSE, agosto a dezembro de 1999.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Lei 10.639 contribuindo para a desmistificação da democracia racial



Prof. Marcos Vinícius Melo dos Anjos1



No primeiro ano de governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, foi sancionada a Lei Federal 10.639/032, que determina a inclusão de conteúdos sobre História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica, que representou uma atitude de coragem na contribuição para o combate a discriminação, ao preconceito e o racismo histórico existente na sociedade brasileira.
Entendemos que em uma sociedade com práticas de cidadania, que contemple a equidade e o respeito mutuo, não necessitaria criar uma lei cujo objetivo é a valoração de uma etnia coparticipe da construção de uma nação. Entretanto, a nossa realidade é herdeira de um processo histórico de humilhação e opressão física e psicológica. Assim, é preciso revisitar a formatação da exploração colonialista europeia, mais de perto da coroa portuguesa, para entender melhor essa herança.
A transferência à força de um grande número de africanos escravizados marcou de forma negativa, a formação do nosso povo. Durante muito tempo os compêndios abordavam somente o viés econômico desse momento histórico. Porém, é preciso pensar no significado dessa ação para o próprio povo africano, que foi envolvido em uma verdadeira diáspora à revelia a sua vontade.
É preciso desvelar a contextualização de que os africanos trazidos para o continente americano eram desprovidos de estrutura cognitiva, que não tinham posição social em seus reinos e somente serviram para o trabalho braçal, bruto como de um animal de tração.
A historiografia atual, com base em diversas fontes, defende que reis, rainhas e pessoas participantes das cortes de vários reinos foram escravizados. Alem disso, é comprovado que povos africanos detinham conhecimento do uso do solo através de técnicas diversas de plantio. O trabalho com a metalurgia e o domínio de grandes construções arquitetônicas, são outros exemplos do grau de evolução de grande parte desses povos.
Outro conceito que devemos reconsiderar é de que não existe apenas uma África, territorialmente falando, como se fosse um único país com características iguais. Estamos falando de um continente com especificidades culturais, geográficas e econômicas. Portanto, alem de falarmos “africanos” devemos reconhecer quais os grupos existentes, a exemplo dos Malês, Nagôs, Yorubás, Angolanos, Zulus e assim por diante.
De posse desses conhecimentos que abordam a visão da realidade dos negros que foram trazidos para o Brasil, nos permite reelaborar conceitos, construir uma nova visão antropológica sobre os africanos, diferente do que muitos livros didáticos de história de décadas passadas abordavam.
Se a interpretação equivocada da história africana e dos africanos, foi durante muito tempo o conteúdo aplicado na educação básica em nosso país, é fácil entender que o senso comum, sobre a importância dos negros, também seria equivocada. Durante décadas a educação formal reforçou o preconceito sobre o negro escravizado e conseguinte para os seus descendentes.
Culturalmente temos um país diverso, fato que nos coloca como uma referência em todo o planeta. Essa situação causa, em boa parte do povo brasileiro, o pertencimento e o sentimento de orgulho de ser brasileiro. Mas multiplicidade não é, necessariamente, igualdade.
Esse contexto de multiplicidade não reflete a inserção igualitária de todos na sociedade. Significa que não são oferecidas as mesmas oportunidades a todos os grupos étnicos formadores desse Brasil, especialmente aos negros e seus descendentes. 
Assim, o processo histórico que inseriu o negro na condição de escravizado no Brasil, propiciou um tratamento de segregação. Delimitou não somente de forma geográfica “os espaços” dos escravizados e dos senhores. A senzala ultrapassava seus limites físicos, impondo um olhar dos dominantes em todos os aspectos sociais. Mais de trezentos anos, compuseram a formação maldosa do senso comum no povo brasileiro fortalecendo a discriminação, o preconceito e racismo.
Exemplo clássico do racismo foi à segregação aplicada no regime governamental da África do Sul, onde o racismo protagonizou um dos mais horrorosos capítulos da história da humanidade. É certo que os parâmetros utilizados pelos colonizadores na África do Sul, divergem dos aspectos preconceituosos e racistas na contemporaneidade brasileira.
Se por um lado, é senso comum que nossa sociedade tem atitudes racistas que não promove equidade, por outro lado, não conseguimos detectar declaradamente os racistas. Em poucas palavras, temos uma sociedade racista, mas não visualizamos os racistas declarados.
Essa reflexão nos permite questionar a decantada democracia racial, onde todos os brasileiros teriam as mesmas oportunidades, pois somos um país miscigenado, que é bonito de se ver em época de carnaval ou em partidas de futebol.
Durante as últimas décadas, essa democracia vem sendo contestada pelos movimentos sociais negros, na tentativa de explicitar a dura realidade que os afrodescendentes enfrentam nas mais diversas áreas da nossa sociedade. A historiografia vem contribuindo com uma nova leitura sobre como o processo histórico contribuiu para o racismo velado, desqualificando a “democracia” acima descrita.
Algumas ações governamentais surgiram como reflexo das lutas históricas de movimentos negros no Brasil. Políticas públicas vêem contribuindo para uma nova leitura da condição dos negros na sociedade e na inserção de oportunidades para os negros.
Diante desse contexto, uma reflexão torna-se pertinente sobre o mito da democracia racial: Como podemos acreditar na democracia racial se nossa sociedade é constituída de oportunidades implacavelmente desiguais? Constata-se que existem altos índices de negros nos presídios? Se ainda temos níveis altíssimos de negros e afrodescendentes com baixa escolaridade?
Implementar nas escolas a Lei 10.639/03 e, recentemente, a Lei 11.645/08 que acrescenta à primeira a questão da história e cultura indígena, é criar condições para se repensar as questões de discriminação, preconceito e racismo nas unidades de ensino. É propiciar à comunidade escolar, a promoção de atitudes mais respeitosas sobre as questões étnicas, contribuindo para formação de uma nova sociedade com uma perspectiva equânime.
Para que o contexto escolar fique alinhado com construção da sociedade desejada, torna-se necessário que as equipes gestoras, pedagógicas, e os professores realmente desenvolvam atividades praticas que auxiliem aos estudantes refletirem sobre as relações étnico-raciais.
Desenvolver ações metodológicas que busquem modificar uma cultura velada de racismo, que se evidencia através de piadas, associações e posturas discriminatórias passa a ser um dos objetivos a serem inseridos no projeto político pedagógico de cada instituição escolar.
Ações pedagógicas como a comemoração dos dias 13 de maio e 20 de novembro devem provocar reflexões sobre a condição socioeconômica dos negros e das suas lutas pelo direito de ter as mesmas oportunidades na atualidade. Eventos sem propositura de reflexão são meros momentos que “se vai com o vento”. Portanto é recomendável que tais datas, sejam trabalhadas como culminância de um ciclo, uma jornada ou uma pesquisa orientada. Dessa forma, será resgatado o pertencimento e a alto estima dos grupos que se veem ali representados. 
Por fim, uma sociedade que investe na educação de forma democrática e participativa, valorando a diversidade étnica e cultural, demonstra uma preocupação com a prática do respeito às diferenças culturais, fortalecendo assim a educação para as relações étnico-raciais e uma sociedade a caminho da verdadeira cidadania.

[1] Marcos Vinícius Melo dos Anjos licenciado em história pela UFS, especialista em docência universitária, professor da Rede Pública Estadual desenvolvendo atividade de Técnico no Núcleo da Educação, da Diversidade e Cidadania – NEDIC/DED/SEED. Professor Assistente da Faculdade São Luís de França.  

2Lei sancionada no ano de 2003, pelo então Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, que promove alteração na Lei de Diretrizes e Bases – LDB nos artigos 26-A, que institui nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e 79-B, que o calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

As Testemunhas de Jeová e o Estado Nazista


Luiz Fernando de Melo Corrêa

Uniforme de um prisioneiro TJ de um campo de concentração nazista. Foto: Lili Galligani.

Desde quando surgiu um pequeno grupo de estudantes da Bíblia na Pensilvânia, Estados Unidos, coordenados por Charles Taze Russel, na segunda metade do século XIX, que as Testemunhas de Jeová (TJ) buscam entender, resgatar, praticar e divulgar o Cristianismo original  apresentado nas páginas da Bíblia. Mesmo sem se pretenderem infalíveis ou portadores de uma nova revelação, as Testemunhas de Jeová tentam viver o Cristianismo na sua essência, mesmo que, para isso, sejam vítimas de más interpretações, preconceitos e até mesmo de severas perseguições.
Na Europa das décadas de 1920 e 1930, as TJ já estavam presentes em vários países divulgando a Bíblia em dezenas de idiomas. Mesmo com as grandes agitações políticas efetuadas por fascistas, comunistas, liberais e anarquistas, as Testemunhas continuaram neutras na política, sua preocupação básica era divulgar somente o Reino de Deus. Entendiam que os governos e os projetos humanos não trariam solução definitiva aos problemas da humanidade.
Com a ascensão do Nazismo ao poder na Alemanha a partir de 1933, a mensagem do Reino de Deus, a neutralidade em assuntos políticos e a não participação nos esforços de guerra colocaram as TJ como um dos maiores inimigos de governo nazista e do seu líder, Adolf Hitler.
Por não apoiar o militarismo, o racismo e a idolatria ao ditador, Hitler, já em 1934, em toda a Alemanha, as TJ passaram a ser espancadas, humilhadas e expulsas das escolas e dos empregos, além de perderem suas casas, direitos trabalhistas e a cidadania alemã.
Helmut Krausnick e Martin Broszat, em seu livro Anatomia do Estado das SS, declararam: “Uma categoria adicional de presos sob detenção (...) depois de 1935 (...) em campos de concentração (...), provinha dos membros das Testemunhas de Jeová”. Em alguns campos de concentração as TJ chegavam a representar cerca de 10% dos prisioneiros e em muitas delas foram confinadas antes mesmo que os judeus. Os autores também comentaram: “Em 1939, a maioria dos detentos [ do campo de concentração ] de Sachsenhausen, era de elementos anti sociais, homossexuais, Testemunhas de Jeová e criminosos habituais”.
A historiadora inglesa Christine King relatou: “surpreendentemente para os nazistas, as Testemunhas tampouco puderam ser eliminadas. Quanto mais fortemente eram pressionadas, tanto mais compactas ficavam, tornando-se duras como o diamante, em sua resistência. Hitler as lançou numa batalha escatológica, e elas mantiveram a fé. Com seu triângulo roxo (identificação no uniforme de prisioneiro), formaram fortes redes [de resistência] nos campos; sua experiência constitui valioso material para todos que estudam a sobrevivência sob extremo stress”.
Por que as TJ foram tão perseguidas mesmo sendo um pequeno grupo de apenas 20 mil pessoas, numa Alemanha que possuía milhões de habitantes? Por que um grupo aparentemente inexpressivo causou tanta pressão por um regime supostamente consensual em toda a nação alemã?
As razões são várias, mas três delas se destacam.
Primeiro, as Testemunhas de Jeová se recusaram a fazer a saudação Heil Hitler. Isto porque elas atribuem a sua salvação a Deus e dedicaram a sua vida somente a Ele. Tal crença baseia-se no Salmo 83:18 que afirma: “Somente tu [Jeová] és o Altíssimo sobre a Terra”. Fazer o gesto com a mão e gritar “Heil Hitler” implicava dizer que a salvação viria por meio de Hitler, não por meio de Jeová [Deus] e de Jesus.
Segundo, as Testemunhas entendem que, embora os governos humanos mereçam respeito e honra como autoridades constituídas, elas obedecem a Deus antes que aos homens, segundo o ensino da Bíblia em Atos 5:29,40-42. Quando os governos ordenam às TJ a desrespeitar os princípios da Bíblia elas prontamente se recusam, mesmo que isso implique na perda do emprego, da liberdade e mesmo da vida.O Estado nazista ordenou as TJ a pegar em armas, aderir ao Partido Nazista e idolatrar a pessoa de Hitler e elas corajosamente recusaram, preferindo continuarem íntegras a Deus.
Terceiro, mesmo com a decretação da pena de morte pelo Estado nazista a todo aquele que se recusassem acatar certas ordens (tanto a morte lenta nos horrores diários das prisões como na morte imediata por fuzilamento  ou gás venenoso nas câmeras mortíferas dos campos de concentração)  as Testemunhas, mantiveram-se firmes, pois têm inabalável confiança na capacidade de Deus de devolver-lhes a vida por meio da ressurreição, segundo  o livro bíblico de João 5:28,29.
De 1919 a 1933, as TJ distribuíram em média oito livros, folhetos e revistas a cada uma das cercas de 15 milhões de famílias na Alemanha.
A revista A Idade de Ouro, depois Consolação, muitas vezes chamou a atenção ao ressurgimento do forte militarismo na Alemanha. Em 1929, mais de três anos antes de Hitler chegar ao poder, a edição em alemão de A Idade de Ouro (atual Despertai) destemidamente declarou: “O Nacional-Socialismo é um movimento diretamente a serviço do inimigo do homem, o Diabo”. A Sentinela de 1º de novembro de 1933 (em inglês) trazia o artigo “Não os temais”. Foi escrito especialmente para as TJ alemãs, exortando-as a terem coragem em fase de crescente pressão.
Em 09 de fevereiro de 1934, J.F. Rutherford, presidente da Sociedade Torre de Vigia (entidade jurídica que representa as TJ) enviou uma carta de protesto a Hitler exigindo que o governo alemão desse liberdade às TJ para  reunir-se pacificamente  para a adorar a Deus sem barreiras. Rutherford deu o prazo até 24 de março de 1934 para Hitler atender esse pedido; se não houvesse resposta favorável, as TJ divulgariam os fatos sobre a perseguiçãoem toda a Alemanha.
Por não haver qualquer resposta positiva em 7 de outubro de 1934  as TJ de cinquenta países enviaram um telegrama para Hitler dizendo em outras coisas “Refreie-se de continuar perseguindo as TJ ; de outra forma, Deus o destruirá, bem como a seu partido nacional”. Os nazistas ficaram furiosos e enviaram muitas TJ para os campos de concentração. Hitler chegou a dizer que “exterminaria essa raça (as TJ) da Alemanha”. A partir dali as TJ passaram a expor as atrocidades nazistas, não somente na Alemanha, mas em toda a Terra.

TJ presas em um campo de concentração nazista. Foto: Domínio Público

Em 1935, A Idade de Ouro expôs os métodos de tortura inquisitoriais do regime nazista e o seu implacável sistema de espionagem, perseguição e aprisionamento. Em dezembro de 1936, promoveram uma campanha de distribuição rápida e subterrânea de uma resolução de protesto contra a perseguição às TJ. Em 20 de junho de 1937, as TJ que ainda não tinham sido presas distribuíram uma mensagem dando nomes das autoridades, datas e lugares que praticavam perseguições. A Gestapo (polícia secreta do regime nazista) ficou estarrecida com essa exposição e pela capacidade organizativa das TJ em realizá-la.
Outras publicações de alerta contra o regime Nacional-Socialista entre 1937 e 1938 foram as seguintes: Encare os Fatos, que acusava os regimes totalitários como pretensos substitutos do Reino de Deus; Aviso! Que alertava que os fascistas e nazistas acabariam com toda a liberdade humana e revitalizariam a antiga Inquisição; Fascismo ou Liberdade. Defendia que a subida do Nazismo ao poder era obra do Diabo, sendo Hitler um homem demente, cruel, maligno e implacável. Consolação (revista, várias edições) Denunciava que haviam sinistras  experiências com gás venenoso, para assassinar prisioneiros no campo de concentração de Dachau. Além de existirem mais de vinte campos onde as condições eram indescritivelmente desumanas, que grupos inteiros de judeus, ciganos, poloneses, gregos, sérvios e outros, estavam sendo exterminados sistematicamente; Cruzada contra o Cristianismo, documentava, em pormenores, os perversos campos de concentração, incluindo desenhos detalhados dos campos de Sachsenhausen e Esterwegen.
Semelhante aos primeiros cristãos que, pela fé e amor a Deus e a Cristo, sobreviveram à opressão e às mortes nas arenas romanas. As TJ, que se esforçam em imitar os primeiros cristãos nos tempos modernos, também foram vitimas de regimes opressivos e cruéis que tentaram (e ainda  tentam ) quebrar a integridade delas a Deus. Assim como os opressores romanos do passado perderam a batalha contra os cristãos que se mantiveram firmes e íntegros mesmo na morte.
O regime Nacional Socialista também perdeu sua batalha contra as TJ, pois seu governo e partido totalitários foram destruídos após a SGM e seu “deus” Hitler suicidou-se e depois foi queimado na própria capital do império nazista, Berlim. Em 1946, após a guerra, as TJ da Alemanha realizaram um grande congresso em Nuremberg no mesmo estádio onde Hitler proferia seus discursos e exibia suas espetaculares demonstrações de poder.
No mesmo dia em que foram anunciadas as sentenças por crimes de guerras dos comandantes nazistas. Na ocasião disse o presidente do congresso: “Só o fato de poder presenciar este dia, que é apenas um antegosto do triunfo do povo de Deus sobre seus inimigos na batalha do Armagedom, valeu a pena eu ter passado nove anos nos campos de concentração”.
            Que fatos como os relatados acima, sejam lembrados sempre por toda a humanidade, para que crueldades tamanhas sofram o repúdio das atuais e futuras gerações.
Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Matheus 5: 9)

Placa memorial as TJ que sofreram o terror no Campo de Concentração de Mauthausen - Áustria.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O livro "Bairro América: a Saga de uma Comunidade"



Este livro é para os amantes da História, para os aracajuanos, especificamente para os moradores do Bairro América de ontem e de hoje, e os simples curiosos e gulosos por leitura.
Um livro, seja ele de qual natureza for, deve ajudar o leitor em alguma coisa. E este ajudará em que?
       Bairro América – A Saga de uma Comunidade traz informações sobre a vida dos bairroamericanos ao longo do tempo. Portanto, o objetivo fundamental é informar. Mas, para os autores foi completamente impossível informar apenas tecnicamente. O relato é carregado das emoções de quem as viveu. Eles tiveram a pretensão de distrair, dar prazer e provocar sensações. Tentaram proporcionar ao leitor “a volúpia de aprender coisas novas” (Leibniz), de transmitir um “espetáculo das atividades humanas” (Marc Bloch). 
Os autores, Emanuel Souza Rocha e Antônio Wanderley de Melo Corrêa, pesquisaram diversos temas envolvendo a história sensacional daquela comunidade aracajuana: A origem do B.A. e o cotidiano dos moradores antigos; a Penitenciária; a Igreja São Judas; os Terreiros de Candomblé; a luta contra a fábrica de cimento; o estigma da violência; as organizações populares; os grupos culturais; a infra-estrutura (o mercado, as escolas e as unidades de saúde); o desporto e as festas populares; finalizando com a biografia e as ações eletrizantes de quinze personalidades daquele bairro.

sábado, 14 de abril de 2012

O Dia dos Índios e questões indígenas



Antônio Wanderley de Melo Corrêa*

       No dia 19 de abril de 1940 teve início, no México, o I Congresso Indigenista Interamericano, sendo o representante brasileiro o antropólogo Edgar Roquette Pinto.
            Por intervenção do marechal Rondon, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto 5.540 de 02 de junho de 1943, determinando como o “Dia do Índio” a data de abertura daquele evento. A partir de então, os brasileiros, não-índios, passaram a comemorar a cada ano, em 19 de abril, o dia dos povos nativos do que hoje denominamos Brasil.
            A grande maioria dos grupos indígenas do Brasil não comemora o “Dia do Índio”. No entanto, a data se constitui em uma oportunidade para reivindicações, além de um momento para reconhecimento dos mesmos diante da sociedade nacional.
            Uso “os índios” e não “o índio”, pelo fato de existirem muitas etnias, cada grupo com suas especificidades físicas, históricas e culturais. Do ponto de vista antropológico é uma aberração o entendimento de que “índio é tudo igual”.
            No passado, o Brasil e a América pertenciam a eles. Após séculos de colonização, invasões, genocídios e etnocídios, a nação brasileira é fato consumado na trajetória histórica, além de reconhecida insofismavelmente interna e externamente.
            Os índios que sobreviveram, e vivem no território nacional, são integrantes da nação, são brasileiros, com direitos específicos e também sujeitos a deveres. Mesmo que alguns indigenistas e lideranças tribais pensem diferente, os índios estão sobre a tutela do Estado brasileiro, como determina a Constituição Federal.
Nos últimos anos, a questão das reservas indígenas ganhou grande espaço na comunicação social, em função da disputa jurídica no STF entre índios e fazendeiros do norte de Roraima. Um caso polêmico por implicar na retirada dos fazendeiros (arrozeiros) da área a ser demarcada e por a mesma ser localizada junto a uma fronteira internacional.
Sobre o tema Reservas Indígenas, vejamos o que diz o Artigo 231 da Constituição Federal: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Os parágrafos 2º, 3º e 4º do mesmo Artigo Constitucional tratam dos interesses dos grupos indígenas e a soberania nacionais: “2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nela existentes; 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei; 4º - As terras (...) são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis”.
            Sobre a questão da preservação das culturas dos povos indígenas, inicialmente vale a compreensão que etnocídio e aculturação não são a mesma coisa. O primeiro é a destruição da cultura de um povo pela imposição de uma outra, como sofreram os povos indígenas do Brasil e da América. Enquanto aculturação é troca e convivência recíproca entre culturas diferentes e não a supremacia de uma cultura sobre a outra. Mas a assimilação da cultura nacional pelos povos indígenas é um processo lento e inevitável, em função da sua presença avassaladora sobre eles.
Assim, os povos indígenas da América e do Brasil, em contato com as sociedades coloniais e nacionais, sofreram etnocídio e hoje sofrem uma aculturação desigual, no que se refere à troca. A assimilação da cultura nacional é fato praticamente irreversível, principalmente a cultura urbana, no que existe de bom e ruim, necessário e supérfluo: uso de roupas, hábitos alimentares, práticas esportivas, televisão e internet, vícios, apego ao dinheiro, além de crenças, o idioma e formas de organização social.
O outro lado da moeda é observado: grupos indígenas se transformando em comunidades pobres, desassistidas e sem identidade. Ou dispersos na busca de trabalho, de uma vida melhor e dos atrativos das luzes da cidade grande.
É oportuno lembrar a contrapartida, o quanto a cultura brasileira é permeada vigorosamente pelas influências indígenas, nos modos de falar e no uso de inúmeros vocábulos, nas denominações de localidades e ocorrências naturais, no artesanato, nas técnicas de produção no campo, na culinária, nos hábitos de higiene do corpo (banhos diários), nas artes e nas incontáveis manifestações do folclore.
Diversos grupos indígenas brasileiros promovem em suas aldeias, a recuperação dos hábitos e tradições originais, como forma de fortaleceram suas identidades e serem assimilados pela sociedade nacional como índios.
Quanto à atuação de ONGs e missionários junto a grupos indígenas, existem trabalhos com convicções e objetivos sinceros e meritórios, entretanto, há nesse universo, propósitos escusos, contrários aos interesses e a soberania nacionais, a exemplo de biopirataria, disseminação de idéias de não pertencimento e de completa autonomia. Nessa questão é preciso evitar opiniões e atitudes extremas, generalizando o contra ou o a favor. Jogar todos na vala comum é injustiça e insensatez, e entender que tudo é idílio e boas intenções é ingenuidade ou cumplicidade.  
A FUNAI, que é o órgão do Governo Federal com a tarefa de proteger a integridade dos grupos reconhecidos e auto-reconhecidos como índios, avançou consideravelmente na demarcação de terras indígenas e na assistência aos referidos grupos, integrada com outros Ministérios e órgãos públicos, inclusive dos estados. A FUNAI comemora o crescimento da população indígena, no território nacional, de 250 mil pessoas na década de 1980, para mais de um milhão na atualidade.
O 19 de abril é uma data comemorativa sobre os índios para a sociedade nacional. Mas, à revelia da data, os povos indígenas brasileiros vivenciam suas trajetórias históricas, há milênios e a dia após dia.

(*) Licenciado em História pela UFS e professor de História das redes públicas estadual (SEED) e municipal (SEMED/PMA).

sexta-feira, 16 de março de 2012

O Museu da Gente Sergipana*


Foto: Lícia Fábio


Francisco José Alves**

            Em novembro passado foi inaugurado, com a devida pompa e circunstância,o Museu da Gente Sergipana. A casa, conforme a publicidade, é um presente do Banco do Estado de Sergipe (BANESE) à população de Sergipe, quando o banco comemorou os seus cinqüenta anos.
            O projeto do Museu da Gente Sergipana é de autoria do celebrado especialista Marcello Dantas, o mesmo autor do Projeto do Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista.
            O Museu se abriga no edifício que originalmente sediou o Colégio Ateneu Sergipense, inaugurado 1911. A edificação foi caprichosamente restaurada, após anos de abandono, e voltou ao fulgor dos seus começos, há cem anos atrás.
            Seguindo o conselho bíblico de conhecer a árvore pelos frutos, visitemos o museu indagando que ideia ou propósito norteou os seus idealizadores. Que mensagem, implícita ou explicita, o museu transmite?
            Visitemos, pois, a casa da gente sergipana e interpretemos os seus signos.
            Comecemos pela nominação.
O nome do Museu tem inequívoca conotação popular, mas o seu conteúdo manifesta, no fundo, evidente predileção pelas elites. Essa dicotomia entre o nome e o conteúdo fica bastante claro em alguns aspectos. Caso exemplar ocorre no módulo dedicado às personalidades, alguns figurões da história de Sergipe. No ambiente, o visitante tem a oportunidade de visualizar fotografias de personalidades e pode até mesmo “ouvi-las”. O elenco ou panteão contempla políticos, intelectuais, artistas eruditos, mas não inclui nenhuma figura oriunda do povo, à exceção de Artur Bispo do Rosário, hoje artista mundialmente reconhecido. Assim, por exemplo, o Museu esquece uma figura como o poeta João Sapateiro de Laranjeiras, entre outras personagens da chamada cultura popular.
O hiato entre o rótulo e o conteúdo evidencia-se, sobretudo no módulo dedicado aos ecossistemas. Neles, são reproduzidos imagens e sons peculiares a cada um dos meios naturais existentes em Sergipe. O visitante experimenta, pela visão e audição, a sensação de estar nesses ambientes.
            No entanto, se a natureza é fartamente exaltada, falta o protagonista. Desta forma, no módulo, em nenhum momento, comparecem os tipos socioculturais que atuam nesses biomas. Temos o cenário, mas faltam os atores, os agentes humanos. Afinal o Museu é votado à gente sergipana. É de se perguntar: onde estão os catadores de caranguejo do litoral? As colhedoras de mangaba dos tabuleiros? Os vaqueiros do nosso semi-árido? Onde estão as ceramistas de Itabaianinha e de Santana do São Francisco? Onde estão as celebradas rendeiras de Sergipe? (o Museu expõe uma peça de renda, mas nada sobre as rendeiras). Estes tipos socioculturais, entre outros, estão ausentes do Museu da Gente Sergipana.
            Também não espere o visitante do Museu encontrar, nos domínios da Casa, nada que mostre os tipos humanos freqüentes em Sergipe. Falo daquilo que os geneticistas e biólogos batizam de fenótipo, ou seja, “conjunto de características do indivíduo determinadas pelo genótipo e pelas condições ambientais”. Embora não haja um homo sergipensis, todavia encontram-se em Sergipe certos tipos físicos que dão carne e osso a sua população, a sua gente. Assim sendo, é lastimável que o visitante do Museu (insisto) da Gente Sergipana nele nada encontre dos curibocas do litoral, dos negróides do vale do Cotinguiba, ou dos “galegos” do sertão. Afinal, a gente de Sergipe tem cara, a sua população não é amorfa ou indiferenciada. Os nossos fotógrafos de hoje têm documentado essa diversidade e, antes deles, Felte Bezerra escreveu obra fundamental sobre o assunto: Etnias Sergipanas. Mas o Museu se esqueceu deles.
             De fato, o povo, no Museu da Gente Sergipana, fica muito restrito ao “folclore” enquanto a ênfase recai sobre personalidades da elite Em princípio, nada contra um museu de figurões históricos como é o caso, por exemplo, do Palácio Museu Olímpio Campos e que centra o seu material nos governantes republicanos de Sergipe. O que incomoda é a flagrante contradição entre o rótulo e o conteúdo, o prometido e o feito. O rótulo do Museu é popular, já o seu conteúdo paga alto tributo ao personalismo elitista.

(*) Jornal da Cidade, Aracaju, 11 de fevereiro de 2012. Caderno B p. 6.

(**) fjalves@infonet.com.br (do Departamento de História – UFS e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Licenciado em História pela UFS, mestre em Antropologia pela UNB e doutor em História Social pela UFRJ)
(**) fjalves@infonet.com.br (do Departamento de História – UFS e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Licenciado em História pela UFS, mestre em Antropologia pela UNB e doutor em História Social pela UFRJ)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Novo espaço para a Sergipanidade

Como forma de abrir possibilidades para os Pedagogos, professores de História, Geografia e Cultura sergipana e demais interessados em  conteúdos sobre Sergipe, a Faculdade São Luís de França inicia sua primeira turma de Pós-Graduação em Metodologia do Ensino dos Aspectos Sócio-Culturais Sergipanos.








As matrículas estão abertas pelo e-mail: possergipanidade@yahoo.com.br
ou pelo telefone: 3214 6300.  

coordenação do curso  Prof. Marcos Vinícius
auxiliar da coord. Adm. Cristina Guedes